Bom dia, Leitorinhos! O que vocês acham
de iniciar a segunda-feira lendo um
trechinho de A Casa da Frente? Prepare
seu coração! Entre na Casa!
Samanta ficou a tarde toda envolvida com os preparativos para o
jantar de Marcelo. Após receber uma ligação dele para lhe confirmar que se
atrasaria um pouco para chegar, Samanta resolveu colocar seus trajes de
ginástica e dar uma corridinha básica pelo condomínio. Já se sentia bem melhor.
A angústia já tinha desaparecido, e ela estava pronta para outra. Assim que
saiu para a calçada e respirou o ar leve de final de tarde, sua disposição
melhorou consideravelmente.
Não havia
completado nem dez minutos de corrida quando alguém lhe alcançou, passando a
correr ao seu lado. Samanta ficou surpresa ao constatar que era Renan.
− Olá – cumprimentou ela, sem poder deixar de reparar que o marido
de Flávia era muito atraente.
− Posso correr com a minha vizinha mais famosa? – perguntou
Renan sedutoramente.
Sem querer
admitir, Samanta chegou a sentir uma fraqueza nas pernas. O sorriso dele era
algo fascinante. Será que ele sorria para Flávia assim, todos os dias?
− Claro. Estou me sentindo um pouco sozinha.
Aquela foi uma
resposta que brotou naturalmente dos lábios de Samanta. O que Renan iria pensar
dela?
− Recebemos o seu encarte hoje no jornal. Eu sei que já deve ter
escutado mais de mil vezes, mas quero lhe dizer pessoalmente que você está
muito bem naquelas fotos.
Um arrepio
percorreu a espinha dela. Não era uma sensação que Samanta, gostaria de sentir,
mas, com apenas duas frases, Renan estava tendo a capacidade de mexer com ela.
− Ah, muito obrigada – agradeceu, tentando se concentrar na
corrida e olhando para frente. Se ficasse mais tempo olhando para o rosto de
Renan, as coisas poderiam complicar. – Realmente as fotos ficaram
interessantes.
− Seu marido deve estar bobo. E com razão.
Renan não
conseguia desgrudar os olhos de Samanta. Era linda aquela mulher. Perfeita da
cabeça aos pés. Percebendo isto, Samanta começou a sentir-se envergonhada.
− Sim, ele está todo orgulhoso. Levou o encarte para o
escritório e me ligou dizendo que os colegas me elogiaram muito. Faz bem para o
ego, não?
− Eu faria a mesma coisa – confessou Renan com sua voz rouca.
Samanta
respirou fundo e deu uma olhadinha para seu companheiro de corrida.
− Ah, sim! Se fosse Flávia a modelo, ela merecia mesmo ser
mostrada para todos.
− Não, não estou falando de Flávia. Estou falando em você.
− Eu pensei que… − Samanta começou a sentir um calorão subindo
pelo rosto.
− Minha mulher é muito bonita, sim – confirmou Renan. – Mas
você, Samanta, tem uma beleza diferente. Diferente de qualquer mulher que eu já
tenha visto.
Com um sorriso
constrangido, ela respondeu:
− Nossa… Assim você me deixa bem encabulada.
− Desculpe, mas não era minha intenção.
− Tudo bem.
− É que eu tenho por hábito falar a verdade sempre.
Samanta sentia o
coração disparado e não era pelo efeito da corrida. Renan. Fazia tempo que não
conversava com um homem como ele. Renan, que exalava sedução e encanto por
todos os seus poros, a observava com seus misteriosos olhos negros. O que
estaria passando pela cabeça dele?
− Também eu… eu também gosto da verdade – Samanta não tinha mais
nada para dizer.
− Marcelo deve ter contado para você que eu o atropelei um dia
destes.
Rindo, ela
confirmou:
− Contou, claro. Mas não foi bem um atropelamento. Segundo ele,
o carro só encostou.
− Fiquei bem assustado. Felizmente não foi nada.
− Sim, não foi desta vez que fiquei sem marido.
− Bem, maridos, namorados, admiradores, fãs…Tudo isto jamais
faltará a você.
− Você é muito galante, Renan – Samanta lhe lançou um olhar
maroto, arrependendo-se no segundo seguinte.
− Não há como não ser. Você me inspira a isto.
“Ele está dando
em cima de mim. E agora?”
Samanta não
queria admitir que estava adorando aquela conversa. Definitivamente, todas as
suas tristezas se evaporaram. Aliás, era impossível sentir qualquer coisa ruim
ao lado daquele homem. Nem mesmo as queixas que Flávia lhe fizera surtiram
efeito na opinião que Samanta estava formando dele. Com certeza, Flávia devia
ser uma exagerada.
− Você costuma correr sempre? Todas as tardes? – perguntou ela.
− Nem sempre. Por quê?
Samanta não
respondeu imediatamente. Insistindo, Renan perguntou:
− Por que perguntou? Precisa de companhia?
− Bem, eu… Não gosto muito de correr sozinha, e não é sempre que
meu marido está disponível.
Nem Samanta
sabia por que estava se atirando para Renan. Era algo inexplicável. Ela amava
Marcelo. Marcelo era o homem da sua vida, o futuro pai dos seus filhos. Era
incompreensível que estivesse se comportando como uma vadia. Seria algum tipo
de vingança contra Flávia? “Tomara que sim”, implorou ela para si mesma. Mas
Samanta sabia que não.
Renan colocou a
mão no bolso do agasalho, pegou o telefone e falou quase como se fosse uma
ordem:
− Me dê o número do seu celular.
Ela chegou a
piscar e quase tropeçou na calçada.
− Como?
− Me dê seu celular. Vou registrar seu número aqui no meu.
Samanta ficou
toda arrepiada. Será que na cama ele era assim... dominador?
Percebendo a
confusão dela, Renan perguntou:
− Você está com medo de mim?
Arregalando os
olhos, ela respondeu:
− Eu? Não!
Mas estava sim.
Aquela era uma situação nova. Era o começo de uma traição, Samanta sabia muito
bem. Nunca, na sua vida amorosa, ela traíra qualquer homem. Fora traída, mas
nunca havia acontecido o contrário. E agora, casada – e muito bem casada –
vinha Renan e abalava todas as suas estruturas. Inacreditável. Aquilo não
poderia estar acontecendo.
− Então? Qual é o problema? – indagou ele calmamente, sem
alterar suas passadas.
− Nenhum, se você não fosse um homem casado.
− Eu só pedi seu celular. Mas se você não quiser me passar…
− Quero, sim.
Samanta quase
mordeu a língua. Não podia ter dito aquilo.
− Então, me diga.
Neste momento
um carro parou ao lado dos dois. Samanta chegou a levar um susto, quase parando
na calçada. Pensou que fosse Marcelo. Mas não. Era um amigo de Renan, que, ao
ver o homem, disfarçou a muito custo todo o seu descontentamento.
Renan se viu
obrigado a parar de correr para falar com o amigo. Samanta, arrependida,
confusa e com a consciência pesada, abanou para ele e disse:
− Vou continuar minha corrida, Renan. Até mais.
Furioso, Renan
observou Samanta disparar, afastando-se dele rapidamente. Ela deu a volta na
quadra e retornou para casa com o coração a mil. Abriu a porta apavorada.
Estava com medo que Renan aparecesse de repente e pudesse tentar alguma coisa.
Mas não era isto o que ela queria? Afinal, ela estava com medo de quem? De
Renan ou de si mesma? Debaixo da ducha gelada, Samanta tentou relaxar. Mas sua
paz não voltou.


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