VAMOS ENTRAR NA CASA?







Leitorinhos, entre na Casa! Liberado um trechinho para vocês!

Samanta acusou o golpe. Sentiu um choque quando chegara em casa no dia anterior e se deparara com Renan brincando com o filho no jardim. Teve que fingir que não o viu e entrou correndo porta adentro. Mas seu coração palpitava. Então, fazendo um esforço supremo, Samanta passou a repelir todo e qualquer pensamento que dizia respeito a Renan.
            Quando Marcelo saiu na segunda-feira pela manhã para ir ao trabalho, ela se sentiu muito abandonada. Tentou novamente começar a afastar Renan da sua mente. Imaginou mil coisas para fazer. Academia, correr pelo condomínio, procurar aquela escola de línguas e se matricular em tudo quanto fosse aula possível para distrair a mente. Aquele tormento não poderia continuar assim, disse para si mesma enquanto limpava freneticamente a cozinha.
            O telefone tocou. Devia ser Marcelo. Ele costumava, às vezes, dar uma ligadinha para dizer que já havia chegado ao escritório.
            Com a vassoura na mão, Samanta atendeu um pouco impaciente:
− Alô?
− Bom dia, Sam.
            As pernas dela tremeram. A vassoura caiu das suas mãos.
− Renan? – os olhos de Samanta brilharam. – Que surpresa maravilhosa!
− Você que é maravilhosa – assegurou Renan, falando ao celular enquanto se dirigia para a sua empresa. – Eu quero dizer a você que adorei todos os momentos que passamos juntos.
            Samanta fechou os olhos, experimentando uma sensação tão arrebatadora, que foi obrigada a procurar uma cadeira para se sentar.
− De você eu guardei as melhores lembranças – Samanta fez uma pausa e prosseguiu. – Renan, quero ficar com você outras vezes.
− Você é uma mulher linda. E é claro que eu quero ficar com você outras vezes também. Muitas outras vezes.
            Renan estava tão satisfeito que nem percebeu que levou uma multa por falar ao celular enquanto dirigia. Nada importava. A voz de Samanta era uma música para os seus ouvidos.
− Jura que vai me ligar para ficarmos juntos mais uma vez?
− Claro que sim – prometeu ele. – Vou ver meus horários na agenda. E você verifique os horários do seu marido. Quero uma tarde inteira. E será pouco.
            Abanando-se com um jornal, Samanta se sentia pegar fogo de alto a baixo.
− Não se preocupe com Marcelo. Dele, eu cuido.
− Certo. Preciso desligar. Eu ligo para você.
− Vou esperar.
− Cuide-se.
− Você também.
            Quando Samanta desligou o telefone, tudo havia mudado. O mundo estava mais colorido, o ar mais leve e o sol parecia brilhar mais.
− Será que estou me apaixonando? – perguntou-se ela, assustada.
            Mas não havia nada a fazer. Samanta não estava disposta a resistir aos encantos e sedução de Renan. E aquilo não era paixão. Era tesão puro.
            Será?
            Talvez devido a um sentimento de culpa que lhe apertava o peito, Samanta decidiu preparar um jantar saboroso para Marcelo. Com a cabeça nas nuvens e em Renan, ela foi ao supermercado se perguntando também qual seria o prato predileto do seu amante. Porém seus pensamentos não foram longe. Assim que pôs os pés na loja, deparou-se com Flávia.
            Tudo o que Samanta desejava era não ter que cruzar com Flávia. Não sabia como encará-la depois de se refestelar com o marido dela. Olhando para os lados desesperadamente, procurando um buraco para se esconder, Samanta não teve tempo de encontrar abrigo. Logo escutou a voz cristalina de Flávia chamando-lhe:
− Sami! Ei, Sami!
            Flávia acenava para Samanta alegremente. Com um sorriso amarelo e totalmente sem graça, Samanta se aproximou da sua vizinha.
            Carinhosamente Flávia a beijou e a abraçou. Perguntou:
− Como foi o seu final de semana?
− Inesquecível – respondeu Samanta, sem jeito. – Fui fazer um trabalho na serra, e Marcelo apareceu de surpresa por lá.
− De surpresa? Que romântico.
            Samanta não percebeu a ironia nas palavras de Flávia.
− Muito romântico mesmo – Samanta se lembrou de Renan. – Ficamos juntos todo o final de semana em um hotel maravilhoso.
− Praticamente uma segunda lua-de-mel – comentou Flávia casualmente.
− Você tem razão – um calorão subiu pelo rosto dela.
            Esquecida do jantarzinho especial para Marcelo, Samanta resolveu pegar qualquer coisa para se ver livre o mais rápido possível do supermercado e da companhia de Flávia.
− O Renan também esteve na serra semana passada para um congresso.
            Empalidecendo, Samanta agachou-se para pegar um vidro de catchup. Suas mãos tremiam.
− Ele sempre promete que vai me levar – disse Flávia inocentemente, fingindo procurar um vidro de maionese. – Mas, na hora “agá”, sempre desiste.
− É uma pena. Você iria se divertir bastante.
            O carrinho de compras de Flávia já estava cheio. Samanta tinha perdido o ânimo de comprar um alfinete que fosse. As duas começaram a se dirigir para o caixa. Percebendo que Samanta estava constrangida, Flávia alfinetou fingindo fazer uma confidência:
− Eu acho que Renan tem uma amante.
            Evitando olhar para Flávia, Samanta fez que inspecionava o cestinho.
− Mas tudo bem – continuou ela. – Não me importo.
− Não se importa? – Samanta a encarou surpresa. – Como não se importa?
− Não me importo – repetiu Flávia, sacudindo os ombros. – Ele que tenha seus casos com quem bem entender. Assim, eu também posso ter os meus.
            Samanta não gostou da última frase, mas não se sentiu com poder de contra-argumentar.
− O importante é sermos felizes – filosofou Samanta sem achar nada melhor para dizer.
− Você tem toda razão – Flávia passou as compras no caixa. – Eu não meço forças para ser feliz. E você?
            “Que papo estranho”, disse Samanta para si mesma.
− Eu também. Eu só quero ser feliz.
− Então – Flávia encarou Samanta longamente, – vamos ser felizes, não é mesmo?
            A princípio, Samanta não respondeu, tentando entender o que Flávia queria dizer com aquela frase. Depois disse:
− Sim, vamos ser felizes. O que vamos levar das nossas vidas? Nada mesmo.
            Naquele momento, chegou uma vizinha mais amiga de Flávia, e Samanta acabou ficando um pouco de lado. Assim que pôde, Samanta juntou suas compras, despediu-se de Flávia e da outra mulher e foi direto para casa.
            Flávia sabia de tudo.


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